EDIFÍCIO MARTINELLI

Um dos mais famosos e imponentes edifícios de São Paulo, o Martinelli foi um sonho louco de seu idealizador, o comendador Giuseppe Martinelli. Nem o próprio criador sabia o que fazer no interior do prédio. O edifício ia sendo erguido e subia irresistivelmente enquanto seu proprietário pensava o que fazer dentro dele e que destino dar a suas dependências. Só duas coisas importavam; o desafio de levantar o maior edifício em concreto armado da América Latina e a magnificência de seu aspecto exterior.

Giuseppe Martinelli certamente pensava mais num monumento a si mesmo do que num simples edifício quando sonhou sua obra. Como a vigiar seu sonho de esplendor o comendador Martinelli construiu uma casa de dois andares na cobertura do edifício, primeiro para provar que ele não ia cair, como todos pensavam, depois certamente para olhar sua obra de cima, cavalgá-la, por assim dizer.

Veio a guerra.

O Brasil declarou guerra à Itália. Giuseppe Martinelli era italiano e mantinha estreitos contatos com o pessoal do Ducce: perdeu o prédio.

Poucos anos depois o edifício estava transformado numa favela vertical, repleta das mais pitorescas, sombrias, comoventes, paupérrimas figuras da cidade. Isso tudo no meio de atividades comerciais que se desenrolavam em suas outrora luxuosas dependências: dois bares, escola de detetives particulares, escola de relojoaria, sindicato dos bancários, secção do Partido Comunista, alfaiates etc. Houve roubos e homicídios em suas dependências. Houve de tudo no Martinelli.

Em 1975, numa atitude no mínimo arbitrária e por outro lado bastante suspeita e pouco transparente, a Prefeitura de São Paulo da época expulsou e despejou todos os moradores. O documentário foi feito nesse momento traumático.

Apesar de seu atual aspecto prosaico e banal, o velho Martinelli jamais deixou de desempenhar um papel central no imaginário da cidade, em seus momentos mais desvairados.