UMA HISTÓRIA TOSCANA

Poderia estar numa colina da Toscana. Simples, elegante, lembra os primórdios do Cristianismo quando a casa de Deus respondia a sua originária razão de ser, livre do império decorativo que ofuscaria patronos, arquitetos e público dos séculos seguintes. "Construída por Morganti", "Decorada por Volpi", lembram duas plaquetas pintadas no ingresso da capela. Nela vemos a mão do jovem Volpi que se esmera na figuração de anjos e profetas e repete ao infinito alguns elementos pictóricos, aqueles detalhes, às vezes geométricos, voltados a preencher o espaço.

Detalhes que mostram, a um olhar mais atento, antecipações do Volpi das fases sucessivas. O Volpi colorista aqui faz seus ensaios, talvez não definitivos, à procura do próprio caminho, que do construtivismo estático passaria ao aspecto formal dinâmico que o consagraria mais tarde.

A poucos quilômetros de Piracicaba, isolada, ainda bem cuidada, a capela leva-nos a um segundo tema que a engloba: é um exemplo de estrutura destinada ao culto dentro de um outrora complexo industrial: a usina Morganti. Com suas casas operárias, suas salas de aula e sua pequena igreja.

Na harmonia e boa conservação da capela e no total abandono e destruição do complexo industrial propriamente dito, do qual a capela faz parte, vislumbramos um trecho da história que inclui o crescimento e fim de uma família, fala-nos de um ciclo produtivo e de um núcleo habitacional que tinha sua própria revista, grêmios esportivos, festas coletivas, expressões de uma empresa que englobava outras regiões, outras importantes unidades produtivas. Esse casamento Morganti-Volpi merece atenção. Dois imigrantes que em vertentes diferentes tentam expor suas qualidades e determinação. O fato de que das industrias Morganti só restam destroços pertence à batalha perdida do homem em relação ao tempo.

O fato de se manterem inalterados os belos trabalhos de Volpi pertence à tentativa, mais bem sucedida, do homem de se equiparar aos deuses.