FESTA

O cenário é uma luxuosa e requintada sala de jogos de uma mansão. Estilo de móveis e arquitetura absolutamente atuais.

O tempo é a duração de uma festa que transcorre na casa. Das oito da noite às cinco, seis da manhã.

Nesse espaço único e nesse tempo escasso a câmera vai acompanhar as pessoas que por várias razões se cruzam nessa sala.

A começar por três personagens que, à falta de outro lugar, são confinados nessa sala de jogos.

De fato dois jogadores de sinuca profissionais e um músico, desses que se exibem em programas de auditório solando um instrumento geralmente estranho, são deixados nessa sala aguardando instruções para se exibirem em algum determinado momento.

Enquanto esse momento não chega, os três artistas, de prontidão, se relacionam com outros elementos da festa. Garçons que passam atarefados e indiferentes, domésticas, guardas de segurança, um mordomo que organiza tudo, profissional e eficiente, eventualmente convidados, elegantes, chiques, inacessíveis.

São relacionamentos fortuitos, ocasionais, fiapos de relacionamento, freqüentemente equívocos, sempre superficiais.

Os artistas esperam que alguém os chame para apresentar sua arte. Os garçons e as empregadas trabalham. As horas vão passando, nada acontece a não ser pequenas humilhações, pequenos ferimentos que já não deixam cicatrizes, corriqueiros para quem vive do outro lado da festa.

As músicas que vêm lá de cima, as vozes, as risadas, vão indicando o transcorrer da festa e das horas. Amanhece, uma manhã chuvosa e fria, como se vê pelo janelão que dá para o jardim. O mordomo desce, profissionalíssimo, para acertar as contas. Cada um recebe seu cachê, embora não tenham se exibido. Saem pelo janelão contando o dinheiro, anônimos como quando chegaram. Nada mais.