BOLEIROS

Num bar de São Paulo, como fazem quase todas as tardes, um grupo de jogadores de futebol se reúne para aquelas conversas longas, desconexas e descompromissadas, típicas dos aposentados de qualquer profissão. Essas conversas ocupam aquele período de tempo difícil de preencher, umas duas ou três horas que são ao mesmo tempo fim de tarde e começo de noite.

Eles vão chegando separadamente, não há surpresa nenhuma com a chegada de qualquer um deles. Chegam com a naturalidade e a intimidade de encontros muitas vezes repetidos, quase automaticamente. E como acontece todas as vezes, a conversa gira em torno do futebol, que ainda ocupa seus pensamentos e assombra as suas noites.

Este na verdade é o filme. Papo de bar. A essência do futebol. A única diferença é que este é um papo entre especialistas, refinado, de gente que "esteve lá", que "conhece".

É inevitável que a conversa seja ilustrada por casos, e esses casos dão lugar a um segundo nível deste filme. Quando algum dos jogadores começa a ilustrar seus pontos ou argumentos com um caso, a ação se desloca para o caso que ele está narrando e os acontecimentos são encenados, às vezes com o auxilio da voz em off do jogador que está narrando. Quando ele termina de narrar, a ação volta para o bar, onde a conversa continua até que alguém comece outro caso.

A concepção deste roteiro visa incorporar no seu próprio desenvolvimento maneiras de ser que pertencem à tradição do futebol. Um exemplo, como já foi dito, é o próprio local: o bar. Outro exemplo é o formato do filme na forma de episódios ou casos. Quando se fala de futebol, sempre se ilustra a conversa com uma pequena vinheta; um lance que ficou na memória, uma frase de um jogador, um momento particularmente empolgante de um campeonato, a atuação de um jogador ou juiz. O roteiro tenta obedecer a esse esquema montado pelo povo, que é a sua maneira, a maneira brasileira de contar os fatos do futebol.

Quanto aos fatos, os casos narrados, o roteiro tenta também lidar com temas freqüentes, que na realidade já fazem parte do patrimônio comum da lenda do futebol.

O ex-grande craque que atravessa momentos difíceis uma vez que a carreira acabou, o juiz "comprado" que hesita em apitar o penalty "acertado" antes, o ex-craque, hoje vivendo de tentar ensinar garotos gordinhos de classe média como jogar futebol numa "escolinha", a macumba como último recurso quando a ciência parece falhar, o racismo ainda que a vítima seja um grande craque, a chegada traumática à cidade grande... Enfim, histórias de futebol.

O filme tende para o humor e a leveza mesmo quando é sério, de novo na tentativa de seguir a essência do próprio jogo. Futebol é humor, é firula, é o drible, é o toque de calcanhar, o gol de letra. Um filme sobre futebol tem que ser um pouco isso.