CIDADE IMAGINÁRIA

A época é entre 1870 e o fim do Império. O barco está parado diante do porto de Santos esperando ordens para atracar. É noite e a tripulação do barco, inquieta, espera amanhecer para descer á terra. Os personagens estão agrupados num dos tombadilhos. Não conseguem dormir de excitação e medo. Nada se vê na escuridão da noite, ouve-se apenas o barulho do mar. É a ultima noite da exaustiva viagem. Há uma angustia difusa entre os personagens como se finalmente tivessem chegado a um momento que julgavam não chegasse nunca. Agora, quando o dia nascer, terão de desembarcar e diante deles a vida nova. Nada sabem do que os espera. Não falam a língua, as informações que tem são provavelmente falsas, a direção a tomar é incerta. De repente todas as dúvidas reprimidas, as perguntas que evitavam formular, afloram no mesmo instante, procurando respostas que não vem. Essas pessoas imaginam um país, o Brasil, e uma região, S.Paulo. Confrontam entre si as informações sobre a nova terra e começam, a partir dessas informações, se essa é a palavra, construir a visão de uma cidade que, evidentemente, pouco ou nada tem a ver com o que vão encontrar. Só que não sabem disso. Em suas cabeças estão indo para uma cidade de fábula, como tudo que diz respeito ao Brasil, fantástica, entrevista através de dados e informações que se perdem no tempo, e que chegaram á Europa desde os primeiros cronistas do século XVI. Nem todos os tripulantes, porém, tem a mesma visão da terra. Há as visões aterrorizantes, de portentos, fenômenos naturais inexplicáveis, tempestades, animais descomunais, selvas impenetráveis e sombrias, cobras pelas ruas. E ao lado disso, igualmente fantasiosas, crenças num lugar de fartura imensa, uma cidade belíssima, civilizada, de clima sempre agradável, de ar puro, sem moléstias, de cordialidade absoluta e oportunidade para todos. Entre a visão do Inferno e a visão do Paraíso, outros personagens tem concepções mais realistas e que pretendem ser mais próximas da verdade. Mas são suposições. Todos, no fundo, se fazem as mesmas perguntas. As respostas diferem, porém, desencadeando verdadeiros combates, onde vem á tona a personalidade de cada um, seus problemas pessoais, suas índoles completamente distintas. São personagens que pouco se entendem. O fluxo migratório de italianos que desembarcaram em S.Paulo é muito matizado e desigual. São estranhos entre si, vindos de regiões diferentes de um pais que ainda não era um país. Quando amanhece a manhã chega trazendo uma névoa espessa, uma camada de neblina intransponível que não deixa ver nada do que está á frente. Os personagens no tombadilho, perdidos no meio da neblina, eles mesmos quase indistintos, permanecem olhando fixamente diante de si, procurando o futuro.

Elvira , cantora de ópera.Entre os trinta e os quarenta anos. Talvez tenha nascido no campo, as mãos são de camponesa, que, aliás,ela oculta como pode, usando luvas e mangas longas. Mas os gestos, e mesmo o sotaque, foram amaciados por longos anos em cidades grandes. Seu andar é o andar de alguém sobre o palco, sua aparência tenta mostrar uma segurança que não tem. Está chegando nessa terra estranha munida de uma carta de Carlos Gomes, mas pode ser falsa. Ela sabe que a carta não lhe foi fornecida pelo maestro, mas por um seu libretista, que jurou pela autenticidade. Para mostrar sua superioridade sobre os demais, de vez em quando cantarola uma ária. Para uma soprano na sua idade, e na época, ostenta uma forma física surpreendente. Os homens não passam por ela indiferentes. É atraente e a pergunta é: por que deixou a Italia para se aventurar no meio daquela pobre gente? De qualquer forma, aparenta uma mulher acostumada a sair de situações embaraçosas e disposta a tudo. È um pouco descontrolada e age de acordo. Alterna estados de animo. Num certo sentido os personagens tempestuosos das óperas reaparecem nela subitamente.

Augusto, um aventureiro que afirma ( quem sabe ao certo?) já ter estado em S.Paulo, e por isso é uma espécie de informante das coisas da terra. É um informante, porém, de duvidosa capacidade. É extremamente misterioso e escapa de perguntas pessoais sempre que pode. Quando não consegue, inventa relatos francamente incríveis. Talvez propositadamente incríveis. Tem uma mulher que ninguém ainda viu. Mantêm-se fechada, oculta em algum lugar do barco durante toda a viagem. Nem neste momento de chegada á terra ela ainda apareceu. O aventureiro conseguiu, apesar de seu passado nebuloso, passagem subsidiada pelo governo brasileiro. Pelo que diz já andou por New York e Buenos Aires. Não costuma dar explicações muito sensatas, nem justificativas sobre o que fala. É uma verdadeira enciclopédia de portentos e fenômenos inquietantes que acontecem em terras brasileiras. Apesar de sua maneira oblíqua de se expressar tem enorme talento para narrar suas estranhas histórias, o que aumenta a inquietude de quem ouve. Mas há o mistério da mulher oculta. Padre Matteo tem ideias precisas, e não certamente tranquilizadoras, do que acontece com essa mulher.

Assunta e Giuseppe, um casal. São jovens, talvez mais jovens ainda do que aparentam atrás da aparência gasta, sem brilho, vincada, desleixada. Tudo neles é pobre, das roupas ao olhar humilde e obsequioso, mas que muita vezes deixa escapar um brilho de avareza e mesquinharia. Falam baixo e entre si ou então ouvem calados o que os outros falam, sobretudo informações sobre o lugar. Cuidam obsessivamente de suas coisas, de suas paupérrimas propriedades. Parecem acreditar que serão roubados a qualquer momento. Nenhum dos dois sabe muito de seus destinos e foram pessimamente informados. São claramente produto do recrutamento criminoso feito por inescrupulosos agentes italianos mancomunados com agentes brasileiros, que ganhavam sobre as pessoas que aliciavam. Assunta parece visivelmente alvoroçada com os boatos e informações truncadas que ouve. Os dois parecem muito preocupados. Não sabem se vão para a lavoura ou não. Ignoram as dimensões do país, e se sobressaltam com qualquer informação nova que lhes pareça estranha. Tem duas crianças mal nutridas e feiotas que viajam com eles.

Luigi e Maria, outro casal também pobre e completamente iletrado. Carecem das mesmas informações que o casal anterior. Luigi, porém, é mais áspero, mais duro, que seu compatriota Giuseppe. Apesar de não saber nada ,Luigi quer saber, opina, desafia concepções que não lhe pareçam claras, enfim, tem personalidade forte. Maria o acompanha, ela também aguerrida e voluntariosa. São camponeses e querem ir para o campo. Luigi parece muito interessado no problema da escravidão no Brasil. Recebe as informações e as digere segundo seu caráter opinativo. Jamais pôs os olhos em qualquer negro em toda sua vida, por isso informações sobre esses seres humanos de cor diferente são fundamentais para ele. Como são tratados e como vivem também. O casal está sempre apegado a seus documentos pessoais, sempre conferindo se estão e ordem, inclusive cartas de apresentação que jamais puderam ler, destinadas a pessoas que talvez nunca encontrem. Maria tem um caráter impulsivo, talvez histérico, e é dada a repentes de cólera, desespero e insegurança. Muitas vezes perde o controle, por exemplo, quando começa a falar dos negros e do seu desgosto e temor de ver seus filhos crescerem no meio de negros. Também é ela quem denuncia ao Padre Matteo, tanto o aspecto da mulher de Augusto, que apenas viu de relance, quanto os ossos da mãe que a adolescente transportava. Tantas faz que acaba por receber uma bofetada violenta de Luigi, que a coloca quase a nocaute. A marca da bofetada fica no rosto. Luigi, passada a raiva, aliviada pela bofetada, se levanta e lhe traz uma caneca com água. Maria bebe e tudo volta á paz. Mas a marca no rosto fica.

Elio, um anarquista fugindo da Itália. Sabe ler e muito bem. A rigor não poderia estar entrando no país, que dá preferência para famílias. Amigos anarquistas de São Paulo já lhe arrumaram, no entanto, uma falsa mulher, com documentos falsos, que o está esperando no porto. Já tem onde ficar e o que fazer em S.Paulo.

Uma quase adolescente, só, que não tem sequer o nome mencionado. Na verdade pretende ir para a Argentina, onde está seu pai.. Confusamente tenta explicar porque embarcou num navio cujo destino é o Brasil e São Paulo. Ás vezes declara que seu pai a está esperando ao desembarcar em Santos. Outras vezes declara que não sabe quem a está esperando. Carrega, numa pequena maleta, os ossos da mãe, que não conseguiu abandonar na antiga pátria. Também traz consigo uma carta que não conegue ler. Elio, o anarquista lê a carta e constata o endereço de Buenos Aires.

Padre Matteo

Uma autoridade a que todos recorrem, mesmo para contestá-la. È representante da força da Igreja no Brasil da época. Aconselha, determina, manda. Vários obedecem cegamente, outros relutam. É-lhe feita uma descrição da mulher de Augusto, secretamente guardada, mas entrevista fugazmente por Maria. Padre Matteo fica extremamente preocupado com o que ouve. Fica sabendo também dos ossos na mala da adolescente. Não sabe o que fazer. Finalmente benze os ossos. É particularmente preocupado com os protestantes, a terrível heresia que permite leitura e interpretação da Bíblia. Não cessa de advertir todos sobre o perigo que representa essa gente. Adverte também contra os maçons. Místico como não poderia deixar de ser, no entanto, enxerga as coisas com grande clarividência quando se trata de política. Sabe perfeitamente o papel da Igreja da qual é parte. Não é burro, absolutamente.